Artigo




Arcadismo

Contexto Histórico

A Europa no século XVIII caracteriza-se por mudanças marcantes. O intenso progresso científico (a formulação da lei da gravidade pelo cientista Isaac Newton; a adoção do empirismo como método de aquisição do conhecimento, pela filosofia, e a classificação dos seres vivos pela biologia) conduz à tecnologia e esta ao aumento da produção. Generaliza-se a idéia de que os negócios e a ciência costituem campos separados da religião.
Essas mudanças fazem parte de um movimento cultural que define a fisionomia da Europa no século XVIII: o Iluminismo .
Iluminismo (de iluminar = esclarecer) designa o esforço cultural cujo objetivo era atualizar conceitos, leis e técnicas, visando a atingir maior eficácia e justiça na ordem social. Todo esse esforço baseava-se na concepção de que o progresso poderia trazer mais felicidade a um número maior de pessoas.
Por isso, o século XVIII é conhecido como século das luzes, momento histórico em que se acreditava que tudo podia ser explicado pela razão e pela ciência. Essa crença consolidou-se na Enciclopédia, obra publicada na França, a partir de 1751, coordenada pelos filósofos franceses D'Alembert, Diderot e Voltaire. Nela, procurava-se reunir todo conhecimento de um determinado momento histórico.
A obra foi um grande sucesso editorial e circulou por toda a Europa, chegando ao continente americano no final do século, mesmo enfrentando proibições.
A produção artística do período despoja-se da religiosidade e busca o equilíbrio, refletindo sobretudo o padrão do gosto da burguesia ascendente.
Esse novo estilo é denominado Arcadismo ou Neoclassicismo e consiste, basicamente, na recuperação dos traços principais da arte clássica, já que os clássicos foram considerados fonte de equilíbrio e saberdoria.
Os nomes Arcadismo e Neoclassicismo sintetizam as características predominantes nos textos da época. Veja por quê:

1) Arcadismo
Palavra que deriva de Arcádia, região da Grécia onde pastores e poetas, chefiados pelo deus Pã, dedicavam-se à poesia e ao pastoreiro, vivendo em harmonia perfeita com a natureza. No século XVIII o termo Arcádia passou a designar também as academias literárias que foram criadas na Europa.

2) Neoclassicismo
Nome que deriva do fato de os escritores da época imitarem os clássicos, quer voltando-se para a Antiguidade greco-romana, quer imitando os escritores do Renascimento.

A palavra imitação não deve ser entendida como simples cópia. Trata-se, antes de mais nada, de aceitar e seguir determinadas convenções clássicas.


Arcadismo em Portugal (1756-1825)

O início e o final do período marcampse pelos seguintes fatos:

-1756: Fundação da Arcádia Lusitana, inspirada na Arcádia Romana de 1690;
-1825: Publicação do poema Camões, de Almeida Garrett, considerando o marco inicial do Romantismo português.

Merecem destaque no contexto histórico português os seguintes fatos:

a) a publicação, em 1764, do Verdadeiro método de estudar, de Luís Verney, ensaio inspirado em idéias iluministas, que propõe a reforma do ensino superior em Portugal;
b) a reformado ensino conduzida pelo marquês de Pombal, logo após a expulsão dos jesuístas. O ensino torna-se leigo, ou seja, fora da influência da Igreja;
c) a fundação da Academia de Ciências em Lisboa (1779), cujo objetivo era atualizar a universidade quanto ao progresso cientifíco da época;
d) a reconstrução de Lisboa segundo arrojadas linhas arquitetônicas, após o terremoto de 1755.

A produção literária da época regista pouco interesse pela pros, em que predominam obras científicas, históricas, filosóficas e pedagógicas. A poesia é a forma literária mais cultivada.

Autor e obra

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Merece destaque no Arcadismo português o poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage.
Nasceu em 1765, em Setúbal. Sua vida boêmia incluiu paixão por Gertrudes, que se transformaria em sua musa sob o pseudônimo e Gertrúria. Seguem-se episódios de uma vida aventureira e dissoluta, a que não faltam prisões e até o recolhimento forçado em um mosteiro. Morreu em 1805, em Lisboa, vítima de aneurisma. Seu pseudônimo árcade era Elmano Sadino.
A obra de Bocage compreende poesia satírica e poesia lírica.

Poesia satírica

Foi graças à obra satírica que se tornou conhecido, embora não seja a parte mais importante de sua obra.

Poesia lírica

É a melhor parte da poesia bocagiana. Nela consideram-se duas fases: a árcade e a pré-romântica.
Na fase árcade, nota-se a preocupação em seguir as convenções do estilo em moda.
Na fase pré-romântica é o ponto alto de sua poesia lírica, valendo-lhe o posto de melhor poeta português do século XVIII. Contrariando princípios árcades, Bocage escreve uma poesia de emoção, solidão e confissão, em que predomina uma visão fatalista e pessimista do mundo.

Arcadismo no Brasil (1768-1836)

Em 1768 inaugura-se o estilo árcade no Brasil com a publicação das Obras poéticas, de Cláudio Manuel da Costa.
O estilo árcade ficará em moda aé a publicação, em 1836, da obra Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves Magalhães, que marca o início do Romantismo entre nós.

Contexto histórico

O século XVIII, no Brasil, é considerado como século do ouro, graças à intensa atividade de extração mineral. Desloca-se o eixo econômico - e com ele o cultural - para Minas Gerais (centro de extração do minério) e o Rio de Janeiro (porto de escoamento e capital da colônia desde 1763).
Com a finalidade de contrabalançar seu déficit comercial, Portugal explorava ao máximo sua colônia americana. Os impostos sobre extração dos minérios aumentava cada vez mais, dando origem a uma generalizada insatisfação.
Juntam-se a isso a influência das idéias liberais, trazidas pelos estudantes brasileiros que passavam pelo Velho Continente, e a independência dos Estados Unidos. Todos esses fatos culminaram na Inconfidência Mineira, preparada por um pequeno grupo de letrados, muitos deles ex-estudantes da Universidade de Coimbra.
Esse mesmo grupo de oposição política era, basicamente, o grupo que produzia ciência e literatura.
Identifica-se na época uma literatura disposta a afastar-se dos modelos portugueses, embora a imitação dos clássicos seja ainda bem nítida.
Além das outras características árcades, revela-se a busca de uma identidade brasileira, sobretudo:

a) pelo aproveitamento do indígena como herói literário.
Esse aproveitamento ocorreu principalmente na poesia épica que aqui se produziu. É o caso dos poemas épicos O Uruguai, de Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa Rita Durão.

b) pela visão crítica da situação política do país, ocorre no poema satírico de Cartas chilenas.

Claúdio Manuel da Costa (1729-1789)

Nasceu em Minas e, após completar o curso de Direito em Coimbra, viveu um tempo em Lisboa, onde entrou em contato com as novidades do Arcadismo. Retornando ao Brasil, tomou parte na Inconfidência Mineira. Morreu na prisão. Glauceste Satúrnio foi seu pseudônimo árcade, sendo Nise sua musa-pastora.

Poesia lírica

A obra lírica de Claúdio Manuel da Costa sofreu grande influência da poesia camoniana. O sentimento amoroso e a descrição da natureza ocupam lugar de destaque em seus poemas.

Poesia épica

O poema épico Vila Rica narra a fundação e a história da cidade, exaltando a aventura dos bandeirantes.

Tomás Antônio Gonzaga

Filho de pai brasileiro e mãe portuguesa, nasceu em Porto (Portugal) em 1744. Estudou Direito em Coimbra, tendo voltado para o Brasil em 1782. Exerceu o cargo de juiz em Vila Rica, antes d ser preso junto com os outros inconfidentes. Sua pena foi o degredo para Moçambique, onde se casou com uma viúva. O pseudônimo árcade adotado por Gonzaga foi Dirceu. Marília é o pseudônimo que inventou para Maria Joaquina de Seixas, sua musa, uma jovem de 16 anos por quem se apaixonou e para quem escreveu suas conhecidas Liras. Morreu em Moçambique, em 1810.

Poesia lírica

Em Marília de Dirceu, obra composta de liras, o poeta, transformado em um eu-lírico pastor (Dirceu), mostra-nos sua paixão por Marília. A obra divide-se em duas partes:

a) A primeira contém confidências amorosas, descrições da amada, planos e sonhos de felicidade conjugal.
b) Na segunda parte agrupam-se os poemas escritos no cárcere, revelando seu sofrimento físico e moral do poeta.

Poesia satírica

Nas Cartas chilenas, poemas satíricos que percorreram Vila Rica antes da Inconfidência, em forma de manuscrita e anônima, Tomás Gonzaga critica o governador de Minas, Luís da Cunha Meneses, que aparece no texto com o pseudônimo satírico de Fanfarrão Minésio.
As cartas são escritas por Critilo (o próprio Gonzaga) e dirigidas a Doroteu (provavelmente Cláudio Manuel da Costa). Fonte: Livro "Língua e Literatura"


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