"O Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento; - o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o que houver de mau na nossa sociedade".
Eça de Queirós, escritor português
"Isto não é um romance em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas".
Machado de Assis, no romance Memórias póstumas de Brás Cubas
Realismo na Europa
Realismo é a denominação genérica da reação aos ideais românticos que caracterizou a segunda metade do século XIX. De fato, as profundas transformações vividas pela sociedade européia exigiam uma nova postura diante da realidade; não havia mais espaço para as exageradas idealizações românticas.
Portanto, o Realismo tem de ser analisado a partir de um novo ponto de referência: a Europa vive a segunda fase da Revolução Industrial, ao mesmo tempo que conhece o desenvolvimento do pensamento científico e das doutrinas filosóficas e sociais. Essas transformações servem de pano de fundo para uma reinterpretação da realidade, que gera teorias de variadas posturas ideológicas. Numa seqüência cronológica, temos:
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Positivismo de Augusto Comte, preocupado com o real-sensível, com o fato, defendendo o cientificismo no pensamento filosófico e a conciliação entre “ordem e progresso;
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Evolucionismo de Charles Darwin, a partir da publicação, em 1859, de “A origem das espécies”, livro em que são expostos os estudos sobre a evolução das espécies pelo processo de seleção natural negando, portanto, a origem divina defendida pelo Cristianismo. Refletindo essa nova ordem, é publicado na França, em 1857, Madame Bovary, de Gustave Flaubert, considerando o primeiro romance realista na literatura universal. Em 1867. Émile Zola lança Thérèse Raquin, inaugurando o romance naturalista;
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Socialismo Científico de Karl Marx e Friedrich Engels, a partir da publicação do Manifesto comunista, em 1848, que define o
materialismo histórico e a luta de classes ("O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, político e intelectual em geral", K. Marx).
Realismo em Portugal
Desde o início da década de 1860 os estudantes de Coimbra acompanhavam atentamente o que acontecia de novo nos principais centros culturais da Europa. O acesso a essas informações tornou-os mais críticos em relação à literatura da chamada Escola de Lisboa, cuja visão de mundo romântica consideravam ultrapassada.
Essas diferentes visões de mundo resultam, em 185, na agitada e polêmica
Questão Coimbrã, em que se defrontaram, de um lado, os velhos românticos da Academia de Lisboa e, de outro, os jovens estudantes de Coimbra, seguidores das novas idéias. Naquele ano, Antero de Quental afirmava:
"Todavia, quem pensa e sabe hoje na Europa, não é Portugal, não é Lisboa, cuido eu: é Paris, é Londres, é Berlim. Não é a nossa divertida Academia de Ciências que resolve, decompõe, classifica e explica o mundo dos fatos e das idéias. É o Instituto da França, é a Academia Científica de Berlim, são as escolas de filosofia, de história, de matemática, de física, de biologia, de todas as ciências e de todas as artes, em França, Inglaterra, em Alemanha".
No trecho transcrito, observa-se que, para o poeta português, o que importava era resolver, decompor, classificar e explicar o mundo dos fatos e das idéias. Em outras palavras, ele defendia o pensamento científico.
Os últimos anos da década de 1860 registraram grande agitação política, social e cultural, mas os resultados mais importantes só apareceriam na década de 70, após um ciclo de palestras conhecidas como
Conferências Democráticas do Casino Lisbonense. Dessas conferências participou, com grande destaque, um jovem que havia mantido alheio à Questão Coimbrã, mas que aderiu ao movimento realista e viria a se tornar um dos mais destacados nomes da literatura portuguesa: Eça de Queirós.
Das dez conferências previstas inicialmente, apenas cinco foram pronunciadas. O governo fechou o Casino e proibiu as restantes porque, segundo as autoridades, ”atacavam a religião e as instituições políticas do Estado”.
Realismo no Brasil
Acompanhando as transformações econômicas, políticas e sociais por que passa a Europa, o Brasil também vive mudanças radicais tanto no plano econômico como no político-social, no período compreendido entre 1850 e 1900, embora com profundas diferenças materiais em relação à Europa. A campanha abolicionista intensifica-se a partir de 1850; a Guerra do Paraguai (1864-1870) te como conseqüência o pensamento republicano – o Partido Republicano foi fundado no ano em que essa guerra acabou; a Monarquia, representada por D. Pedro II, no poder havia 40 anos, sofre uma vertiginosa decadência. A Lei Áurea, de 1888, não resolve o problema dos negros, mas cria uma nova realidade. A mão-de-obra escrava é substituída pela mão-de-obra assalariada, representada pelas levas de imigrantes europeus que vinham trabalhar na lavoura cafeeira, tendo início então uma nova economia, voltada para o mercado externo e livre de estrutura colonialista.
Reflexos dessas mudanças já são sentidos em parte da literatura produzida no final da década de 1860; na década de 70 surge a chamada Escola de Recife, cujas idéias se aproximam do pensamento europeu. O positivismo, o evolucionismo e, principalmente, a filosofia alemã são os inspiradores do Realismo, encontrando ressonância no conturbado momento histórico vivido pelo Brasil, sob o signo do abolicionismo, do ideal republicano e da crise de Monarquia.
Considera-se 1881 o ano inaugural do Realismo no Brasil, com a publicação de três textos fundamentais, que modificaram o curso de nossas letras: O mulato, de Aluísio Azevedo, considerando o primeiro romance naturalista brasileiro; Memórias póstumas de Brás Cubas e O alienista, de Machado de Assis, primeiras obras realistas de nossa literatura.
Características do Realismo
As características do Realismo estão intimamente ligadas ao momento histórico em que se insere esse movimento literário, refletindo, dessa forma, a postura do positivismo, do socialismo e do evolucionismo, com todas as suas variantes. Assim é que o objetivismo aparece como negação do subjetivismo romântico e nos mostra o homem voltado para aquilo que está diante e fora dele, o
não-eu; o personalismo cede terreno ao
universalistmo. O
materialismo leva à negação do sentimentalismo e da metafísica. O nacionalismo e a volta ao passado histórico são deixados de lado; o Realismo só se preocupa com o
presente, com o
contemporâneo.
Romance realista
Cultivado no Brasil por Machado de Assis, é uma narrativa que se volta para a análise psicológica dos personagens e, a partir do comportamento deles, crítica a sociedade. É interessante constatar que os cinco romances da fase realista de Machado apresentam nomes próprios em seus títulos – Brás Cubas; Quincas Borba; D. Casmurro; Esaú e Jacó; Aires -,revelando inequívoca preocupação com o indivíduo. O romance machadiano analisa a sociedade através de personagens capitalistas, ou seja, pertencentes à classe dominante: Brás Cubas não produz, vive do capital, o mesmo acontecendo com Bentinho: Já Quincas Borba era louco e mendigo até receber uma herança; o único dos personagens centrais de Machado que trabalhava era Rubião (professor em Minas), mas recebe a herança de Quincas Borba, muda-se para o Rio e não trabalha mais, vivendo do capital. O romance realista é documental, retrato de uma época.
Romance naturalista
Foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo e Júlio Ribeiro; o caso de Raul Pompéia é muito particular, pois seu romance O Ateneu ora apresenta características naturalistas, ora realistas, ora impressionistas.
A narrativa naturalista é marcada pela vigorosa análise social a partir de grupos humanos marginalizados, em que se valoriza o coletivo; é interessante notar que essa preocupação com o coletivo também está presente nos títulos dos romances naturalistas: O mulato, O cortiço, Casa de pensão, O Ateneu. Sobre o romance O cortiço, há uma tese de que o personagem principal não é João Romão, nem Bertoleza, nem Rita Baiana, nem Pombinha, mas o próprio cortiço ou, como afirma Antonio Candido, “o romance é o nascimento, vida, paixão e morte de um cortiço”.
O naturalismo apresenta também romances experimentais: a influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista que enfatiza a natureza animal do homem: antes de usar a razão, o homem se deixaria levar pelos instintos naturais, não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas – como o sexo – pela moral da classe dominante; a constante repressão levaria às taras patológicas, tão ao gosto naturalista. Em conseqüência, esses romances apresentam descrições minuciosas de atos sexuais e tratam de temas até então proibidos, como o homossexualismo, tanto masculino, como em O Ateneu, quanto feminino, em O cortiço.
Entendendo melhor o Realismo
Contexto Histórico: Revolução científica e industrial.
Traços Básicos: Positivismo e Determinismo. Denúncia social.
Autores Principais:
- Eça de Queirós => Crítica a burguesia;
- Machado de Assis => Análise dos motivos das ações humanas.
Eça de Queirós
A obra de Eça de Queirós pode ser vista como um verdadeiro inquérito sobre a sociedade portuguesa de seu tempo e particularmente a lisboeta.
Eça critica desde a nobreza decadente, passando pela denúncia de corrupção e corporativismo da igreja católica, pela frouxidão dos costumes e pela improdutividade das classes média e rica, até culminar com a revelação da falta de escrúpulos e excesso de devassidão no seio de famílias privilegiadas.
Joaquim Maria Machado de Assis
De origem humilde, freqüentou apenas a escola primária. Foi sacristão, tipógrafo, revisor e redator de jornal.
Em 1869, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novaes, que influenciou muito sua carreira. Ocupou vários cargos públicos e, juntamente com outros intelectuais, fundou a Academia Brasileira de Letras, sendo eleito seu presidente.
Iniciou-se como romântico, mas já prenunciava a fase realista, pois jamais teve o pieguismo comum dos românticos. Tendo estruturado uma linguagem sóbria, aplica algum psicologismo nessa sua fase romântica e sobretudo estabelece relações sociais interesseiras entre parte de suas personagens românticas.
Fonte: apoioescola e Sistema de Ensino COC